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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Brincadeira (Crônica)

 
Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:

- Eu sei de tudo.

Depois de um silêncio, o outro disse:

- Como é que você soube?
 
- Não interessa. Sei de tudo.

- Me faz um favor. Não espalha.

- Vou pensar.

- Por amor de Deus.

- Está bem. Mas olhe lá, hein?

Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.

- Sei de tudo.
 
- Co- como?

- Sei de tudo.

- Tudo o quê?

- Você sabe.

- Mas é impossível. Como é que você descobriu?

A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:

- Alguém mais sabe?

Outras se tornavam agressivas:

- Está bem, você sabe. E daí?

- Daí nada. Só queria que você soubesse que eu sei.

- Se você contar para alguém, eu...

- Depende de você.

- De mim, como?

- Se você andar na linha, eu não conto.

- Certo.

Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.

- Eu sei de tudo.

- Tudo o quê?

- Você sabe.

- Não sei. O que é que você sabe?

- Não se faz de inocente.

- Mas eu realmente não sei.

- Vem com essa.

- Você não sabe de nada.

- Ah, quer dizer que existe alguma coisa pra saber, mas eu é que não sei o que é?

- Não existe nada.

- Olha que eu vou espalhar...

- Pode espalhar que é mentira.

- Como é que você sabe o que eu vou espalhar?
- Qualquer coisa que você espalhar será mentira.

- Está bem. Vou espalhar.

Mas dali a pouco veio um telefonema.
 
- Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre nada daquilo.

- Aquilo o quê?

- Você sabe.

Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:

- Você contou para alguém?

- Ainda não.

- Puxa. Obrigado.

Com o tempo, ganhou uma reputação. Era de confiança. Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.
 
- Por que eu? – quis saber.
 
- A posição é de muita responsabilidade – disse o amigo. – Recomendei você.
 
- Por quê?
 
- Pela sua descrição.
 
Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos, mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem-informado, um gentleman. Até que recebeu um telefonema. Uma voz
misteriosa que disse:
 
- Sei de tudo.
 
- Co- como?
- Sei de tudo.

- Tudo o quê?
 
- Você sabe.
 
Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigara. O que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto numa praia remota. Os vizinhos contam que a voz que uma noite vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que mais se ouvia era a dele, gritando:

- Era brincadeira! Era brincadeira!
 
Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado. Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo.
Sabia demais.
(Luis Fernando Veríssimo. Comédias da vida privada. Porto Alegre: L&PM, 1995. P. 189-91.)
 
                                                                                                        Guilherme Paschoal de Godoy
            
                   

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